Imprevisibilidade é o nome e o sobrenome da maternidade.
Manuela é um doce de menina, delicada ao extremo, mas outro dia surpreendi a menina estapeando o irmão na cara. Os meus filhos nunca morderam ninguém e nunca foram mordidos, mas, também outro dia, peguei o Pedro mordendo o Joaquim, coisa que aconteceu duas vezes no mesmo dia! E o moleque se justificou dizendo que “não era mordida, era um carinho de pizza” (taí um raciocínio difícil de entender e acompanhar!).
Os meus filhos nunca foram de enfiar “objetos estranhos” no nariz, nos ouvidos, ou seja, em lugares inapropriados, até ontem! Para resumir, Joaquim estava brincando com um Lego e uma pecinha muito, muito pequena “foi parar” dentro do nariz da criança. Ele não estava sozinho e a coisa toda aconteceu em frações de segundos. O rapaz estava calmo, apesar de espirrar feito o maior dos alérgicos e dizia com a maior firmeza e segurança que tinha uma pecinha em seu nariz.
Eu olhava, olhava, na luz, com o menino de ponta cabeça, mas não via nada. E ele continuava dizendo que a peça estava lá. Fiz o menino assoar o nariz umas quinhentas vezes e a peça permanecia imóvel, segundo o relato dele.
Na hora me bateu um desespero que me tirou o chão e levou para bem longe a minha capacidade baixa de raciocínio. Daí, tive uma idéia brilhante: levá-lo ao pronto-socorro do hospital mais próximo. Então, me dei conta de que estava na hora da saída da escola nova da Manu, em pleno segundo dia de aula. Como é que eu ia levar um filho ao pronto-socorro para resgatar o Lego e buscar uma filha no segundo dia de aula na escola nova? Dá para entender que o chão se abriu e o meu cérebro parou de funcionar, não dá?
Por sorte, a minha mãe estava em casa e se ofereceu para ir buscar a Manu. Então ela me perguntou:
- Como é que eu chego lá, filha? Eles vão me entregar a Manu, ou você precisa dar uma autorização?
Eu não conseguia nem explicar o caminho da escola nova e nem achava o telefone da bendita para ligar e autorizar uma avó de buscar a netinha. Enfim, contei até uns 600 mil, consegui achar um telefone daqueles com quatro zeros no final, foram me passando de um ramal a outro, até que falei na educação infantil e resolvi.
A situação já estava tensa o suficiente, mas só para mim, aparentemente, já que o Joaquim resolveu fazer cocô antes de sair de casa e praticamente leu todos os jornais da semana no trono de tanto que demorou. Nesse meio tempo, tive outra idéia brilhante: ligar para a pediatra! Foi a segunda grande luz do dia (depois explico qual foi a primeira!).
A fofa me explicou que não adiantava levar no PS. Imaginei que lá eles tirariam um raio X do narizinho perfeito do meu filho, encontrassem o Lego e o retirassem através de um procedimento cirúrgico delicado, arriscado e grave (hello, drama!). Ela me mandou ir ver uma otorrino que seria a melhor pessoa para avaliar a situação e me orientar a conduzi-la apropriadamente.
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O meu banheiro tem uma iluminação poderosa e planejada, coisa digna de camarim das modelet´s do SPFW e nunca foi usada de acordo com o projetado, já que eu não sou top model e prefiro manter o look básico das olheiras forever. Mas eu sabia que aquela frescurada toda seria útil algum dia, é claro: me ajudaram a enxergar uma pecinha muito pequenininha e pretinha devidamente instalada lá em cimão do nariz do meu Quiquim. (Captaram a primeira grande luz do dia??).
Liguei para a pediatra de novo:
- Achei! Achei! Tô vendo a pecinha no nariz do Joaquim! Vou pegar uma pinça e tirar, ok?
Fui proibida de tocar na pinça, pois ela poderia empurrar o Lego para dentro, a pecinha pararia no pulmão, causando tosse e vômito e hello, procedimento cirúrgico delicado, arriscado e grave! Ou seja, corre para o otorrino.
Correr para o otorrino às 5 e 15 da tarde de São Paulo, com ameaça de chuva forte é uma questão, essa sim, delicada. Mandei o Joaquim interromper a leitura do último caderno do jornal do dia, arranquei o rapaz do trono e lá fomos nós! Eu demorei mais de 1 hora para chegar, gente! E só pensava nesse menino que poderia aspirar a pecinha, levá-la para o pulmão e ter uma crise de tosse e vômito no carro, sozinho comigo, no trânsito e na chuva.
Mas, ele entrou no carro e dormiu, capotou! Foi dormindo até a otorrino, respirando lindamente, como eu podia bem observar naquela situação de trânsito caótico.
Chegando lá, foi relativamente simples. Uma tesourona bem comprida com uma pinça na ponta trouxe de volta a peça do Lego. Voltamos para casa com o brinquedinho cheio de meleca e apenas uma receita de Rinosoro para cuidar do arranhãozinho interno.
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E eu só fico pensando que se ele tivesse escolhido uma peça branca ou de cor mais clara, teria sido possível enxergá-la com mais facilidade, adiantando todo o processo e até me permitindo ir buscar a Manu na escola nova no segundo dia de aula.
Foi uma descarga de adrenalina digna de um salto de pára-quedas. Eu detesto esportes radicais, desses que te jogam de um avião em queda livre, ou mesmo saltar de uma altura absurda presa apenas por um elástico, passo tudo isso, obrigada. Prefiro me aventurar na radicalidade da maternidade.
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Mas, e vocês, tudo bem?
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