
Quando eu era pequena, tinha um livro só de histórias de medo. Não era de terror, eram várias histórias dos medos que diferentes pessoas sentiam.
Tinha os medos da mãe, do pai, dos filhos por fantasma, bruxa, sapo, perereca, barata e outros. Me lembro bem das ilustrações e da moral da história: todo mundo tem medo. Não importa a idade. Pode ser de borboleta, lobisomem ou ladrão.
Tem também aquele papo (de psicólogo!!!) de que os medos nos protegem, assim agimos com maior cautela e atenção em situações mais "perigosas", dizem até que é puro instinto de sobrevivência.
A minha própria mãe vivia dizendo que a minha irmã devia ter mais medo de cachorro, porque ela não podia ver um que já ia fazendo carinho, pegando e passando a mão.
Essa falta de medo dos "cachorros da vida" (qualquer um mesmo, sem pedigree ou carteirinha de vacinação) lhe rendeu bicho de pé, cicatriz de uma mordida e uma mordida sem cicatriz.
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E a Manu descobriu a polícia, ou melhor, o medo da polícia. (Só para constar, também me pelo de medo da polícia, mas essa questão não é para esse blog.)
No entanto, o medo dela é diferente. Vive me perguntando se a polícia prende criança. Eu explico, explico e explico e a pergunta volta:
- Mas a polícia, mamãe, prende criança?
E, de uns tempos pra cá, o medo e a pergunta foram um pouco mais longe.
- Mas a polícia, mamãe, come gente?
Essa é a nova moda do medo: saber quem come gente.
Já perguntou do lobo, do vampiro, do Shrek, da bruxa, do tubarão, da baleia, de todos os afins aquáticos e marinhos.
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Mas a melhor, pra mim, foi sábado à noite.
A nova vizinha de cima estava fazendo a maior barulheira, andando de um lado para o outro de salto (ma-la).
E a Manu não conseguia dormir, ficou na sala comigo. Também olhava de um lado para o outro procurando da onde vinha tanto barulho. Quis saber se a vizinha tava na nossa casa e a sensação era bem essa mesmo. Até que:
- Mamãe, a vizinha come gente?
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No mínimo, a Manu contaria a vocês que a vizinha tem um olho só, meia dúzia de dentes pretos e podres, garras enormes, cabelo verde de espanador, é corcunda, cheia de verrugas e fedorenta.
É assim o seu medo de quem come gente, filha??
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